Para um álbum de fotografias |
Voltar Edilson Guglielmeli - Artista e contador de Histórias.
Orfeu
Desoasô desembarcou no Brasil, poucos anos após terminar a segunda grande guerra.
Jovem e talentoso cinegrafista, trazia a memória carregada de lembranças de uma Europa
destroçada pela guerra e a firme determinação de começar a vida nova e feliz. E
veio com ele o irmão, Felice Desoasô.
Imediatamente integraram-se à comunidade que os acolhia e puseram-se ao trabalho. O
Brasil possuía muito o que documentar e não perderam tempo. Em viagens sem conta,
registraram em rolos e rolos de filmes o país multifacetado. Pilhas de rolos de filmes e
a poeira de tantos anos passados atravancavam a casa dos irmãos. Já velhos e sem
herdeiros, decidiram doar os filmes a alguma instituição interessada brasileira. E o
Material trocou de endereço, para continuar apodrecendo no porão de uma repartição
pública qualquer, no Rio de Janeiro. Os dois velhos seguiram suas vidas aposentadas em
sua velha casa no bairro do Maracanã.
Por distrair a inevitável solidão de francês sem família (além do irmão), Orfeu
criava um ou outro cão, em geral um vira-lata que encontrava na rua. Em certa época um
desses era sempre visto em sua companhia amarrado a uma cordinha, em seus passeios pelas
ruas da vizinhança; o cachorro não possuindo pelos, devido a doenças de pele, parecia
feito de borracha suja. Mas de tão amado pelo dono foi, para este, fonte de
infinita tristeza quando de sua morte repentina; Orfeu não se consolava e os vizinhos,
preocupados com a saúde do velho homem, trataram de arranjar um novo cão. Uma
fêmea vira-latas toda preta foi providenciada. E logo, a nova dupla inseparável,
sempre encontrada em calmos passeios pelas tardes quentes do Maracanã. Isabele (era o
nome da cadela) crescera e engordava, parecia uma mortadela preta equilibrando-se sobre as
quatro patinhas finas; Orfeu magro, curvado e branco; e a vizinhança satisfeita com sua
boa ação.
Porém o tempo inclemente, ceifando vidas distraídas, numa de suas determinações
irrevogáveis, arrastou consigo o velho irmão de Orfeu. Felice fechou os olhos levando as
lembranças de um mundo povoado de imagens em movimento, e nunca mais os abriu. A
vizinhança alvoroçada imaginou que o fim de Orfeu não estaria longe; a funda tristeza o
arrastaria também. E nos dias subsequentes Orfeu e Isabele eram vistos, ligados por uma
cordinha a passear. Orfeu sorria como quase sempre e gentil cumprimentava e respondia
aos cumprimentos. Aos que insistiam ainda lembrar a recente morte de seu irmão
Felice, com pêsames e eteceteras, Orfeu respondia apenas:
- Cést la vie.
No entanto, como costuma ser hábito dos cães, Isabele envelheceu muita mais rápido do
que o seu dono; e por fim morreu. Orfeu, inconsolável, parava no portão da casa com a
cordinha na mão, dependurada, não se animando sair sem sua boa companheira que, a esta
altura, obstinava em estar deitada numa cova rasa, enrolada em panos e coberta de terra no
fundo do quintal. Três dias passados e Orfeu no portão, imóvel, a cordinha sem
vida na mão, Zeferino, um amigo fotógrafo, passando por ali àquela hora, ouve as
queixas e comenta distraído:
- Se ao menos Orfeu tivesse uma foto de Isabele, poderia diminuir a saudade. Orfeu
Desoasô não possuía nenhuma fotografia de Isabele. Mas súbito, um pensamento iluminou
os olhos dele: convocou imediatamente o amigo fotógrafo com sua câmera fotográfica,
correu até o quintal, afastou a terra, colheu a amiga adormecida, desenrolou-se dos panos
a tomando-a nos braços sorria posando para a foto. Uma luz crua de meio-dia banhava
a pino, o velho vestido em camiseta e nos braços dele a cadela, que talvez incomodada
mostrava a lingua inchada e os olhos saltando das órbitas; o cheiro era já
insuportável. Zeferino atônito apenas focava a máquina, disparando duas ou três vezes.
Sentindo-se mal, com o estômago em revoltas, despediu-se do amigo e saiu. Orfeu devolveu
a amiga ao seu leito de repouso infinito.Uma semana depois e Zeferino revelava as fotos,
enquanto a imagem se formava diante de seus olhos, era assaltado pela lembrança física
daquele cheiro insuportável, fazendo força para controlar o mal-estar e evitar o
vômito. Por fim mostrou as fotos ao amigo, esta olhava e parecia descontente, afinal
falou: - Eu fiquei muito feio, estou parecendo muito velho.
- Podemos pegar Isabele e fazer outra foto!
Zeferino desesperava imaginando ter que defrontar com a cena e o cheiro novamente. Foi a
mãe de Zeferino que o salvou:
- Coitadinha da Isabele, é melhor deixá-la descansar em paz. Orfeu, afinal,
concordava:
- A senhora tem razão.
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